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MIA COUTO

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.

 

_______ Mia Couto 

 

 

 

Ao partir,
disseram-me; voltarás sempre.

Parecia um consolo.
Era uma condenação.
Odeio o sempre.

Nos lugares
da vida carecidos,
o sempre é o pior dos nuncas.


_______ Mia Couto 

 

 

Ao partir,
disseram-me; voltarás sempre.

Parecia um consolo.
Era uma condenação.
Odeio o sempre.

Nos lugares
da vida carecidos,
o sempre é o pior dos nuncas.


_______ Mia Couto 

 

Não me basta ser
eu quero o transbordar de tudo, 
o desassombro
que toda margem desconhece.
Não me basta morar:
Quero ser habitado
Por quem ao destino desobedece.
Não me basta viver
Quero a vida como febre,
o amor como lume e água.
No final, saberás:
o que se ama não regressa
O que se vive 
não começa
E o sonho
nunca tem pressa.

_______ Mia Couto 


 

Chegas,
Sóbria e sombria,
E desocupas em mim
A tua própria sombra.

Agora és a minha própria voz:
Nenhum silêncio nos pode calar.

Falas e acaba o tempo.
E eu escuto-te
Apenas quando te lembro.

 

_______ Mia Couto 

Mia couto

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