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EUGÉNIO DE ANDRADE

DECLÍNIO

As janelas
por onde entram as silvas,
a púrpura pisada,
o aroma das tílias,
a luz em declínio,
fazem deste abandono
uma beleza devastadora
e sem contorno.


_______ Eugénio de Andrade

ADEUS

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
Gastámos as mãos à força de as apertarmos,
Gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.


Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.


Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.


Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.


_______ Eugénio de Andrade

As palavras que te envio são interditas

As palavras que te envio são interditas

até, meu amor, pelo halo das searas;

se alguma regressasse, nem já reconhecia

o teu nome nas suas curvas claras.

 

Dói-me esta água, este ar que se respira,

dói-me esta solidão de pedra escura,

estas mãos nocturnas onde aperto

os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.

Nas suas margens nuas, desoladas,

cada homem tem apenas para dar

um horizonte de cidades bombardeadas.

_______ Eugénio de Andrade

Ó NOITE, PORQUE HÁS-DE VIR SEMPRE MOLHADA!

Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada! 
Porque não vens de olhos enxutos 
e não despes as mãos 
de mágoas e de lutos! 

Poque hás-de vir semimorta, 
com ar macerado e de bruxedo, 
e não despes os ritos, o cansaço, 
e as lágrimas e os mitos e o medo! 

Porque não vens natural 
Como um corpo sadio que se entrega, 
e não destranças os cabelos, 
e não nimbas de luz a tua treva! 

Poque hás-de vir com a cor da morte 
- se a morte já temos nós! 
Porque adormeces os gestos, 
porque entristeces os versos, 
e nos quebras os membros e a voz! 

Porque é que vens adorada 
por uma longa procissão de velas, 
se eu estou à tua espera em cada estrada, 
nu, inteiramente nu, 
sem mistérios, sem luas e sem estrelas! 

Ó noite eterna e velada, 
senhora da tristeza, sê alegria! 
Vem de outra maneira ou vai-te embora, 
e deixa romper o dia!


_______ Eugénio de Andrade

POEMA À MÃE 

No mais fundo de ti,
eu sei que traí , mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes,as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesse-mos as horas de pesadelos.

Mas tu esqueces muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música. 
Chamo por ti, e o teu nome ilumina 
as coisas mais simples: 
o pão e a água, 
a cama e a mesa, 
os pequenos e dóceis animais, 
onde também quero que chegue 
o meu canto e a manhã de maio. 

Um pássaro e um navio são a mesma coisa 
quando te procuro de rosto cravado na luz. 
Eu sei que há diferenças, 
mas não quando se ama, 
não quando apertamos contra o peito 
uma flor ávida de orvalho. 
(...)

Porém eu procuro-te. 
Antes que a morte se aproxime, procuro-te. 
Nas ruas, nos barcos, na cama, 
com amor, com ódio, ao sol, à chuva, 
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te."


Eugénio de Andrade, em "As Palavras Interditas"

"Aprendi que os amigos podem guiar-se,
ambos cegos, vida fora,
sem saberem que a amizade nunca leva a um lugar preciso,
senão antes nos faz errar sem objectivo por caminhos desinteressados,
porque habita no mais singelo prazer da companhia em descaminho."


Manuel Andrade, em "Lugar de um Deus que me livre"

OS AMANTES SEM DINHEIRO

Tinham o rosto aberto a quem passava. 
Tinham lendas e mitos 
e frio no coração. 
Tinham jardins onde a lua passeava 
de mãos dadas com a água 
e um anjo de pedra por irmão. 

Tinham como toda a gente 
o milagre de cada dia 
escorrendo pelos telhados; 
e olhos de oiro 
onde ardiam 
os sonhos mais tresmalhados. 

Tinham fome e sede como os bichos, 
e silêncio 
à roda dos seus passos. 
Mas a cada gesto que faziam 
um pássaro nascia dos seus dedos 
e deslumbrado penetrava nos espaços.

 

_______ Eugénio de Andrade

 

 

AS AMORAS

O meu país sabe a amoras bravas 
no verão. 
Ninguém ignora que não é grande, 
nem inteligente, nem elegante o meu país, 
mas tem esta voz doce 
de quem acorda cedo para cantar nas silvas. 
Raramente falei do meu país, talvez 
nem goste dele, mas quando um amigo 
me traz amoras bravas 
os seus muros parecem-me brancos, 
reparo que também no meu país o céu é azul.

_______ Eugénio de Andrade

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